quarta-feira, 3 de agosto de 2016

04. A princesa e o sapo

Carolina, também um pouco conhecida como Dona Carol, tem seus sessenta e sete anos de pura miséria e rancor. Hoje ela vive sozinha numa casa grande e mal arrumada. De fora parece que a casa é mal assombrada, suas telhas estão quase pretas, a pintura mofada, as madeiras do telhado estão podres.

Muitos anos atrás, quando ela tinha dezesseis, seus pais lhe arrumaram um casamento forçado. Numa tarde ordinária ela foi chamada à sala quando seu pai, com um bigode medonho, lhe disse com firmeza:

- Te consegui um casamento, você se casará com Seu Olegário em um mês.

Carol viu brotar em seus olhos uma lágrima salgada, que ardia de ódio. Seu pai a obrigaria a se casar com um velho, de cinquenta e quatro anos, barrigudo, com bolsas escuras e enrugadas em baixo dos olhos, fétido, porco, grosso, bêbado, um verdadeiro sapo digno de um esgoto.

Casou-se, deixou sua paixão por Marcos, sujeito limpo e bonito, mas sem grandes propriedades.

Foram trinta anos de um casamento miserável, onde Carolina era estuprada diariamente, mas ela não teve filhos. Dona carolina nunca teve sequer uma conversa amigável com Seu Olegário. Ela só servia para satisfazer as necessidades fisiológicas do marido e para fazer os serviços de casa. Até que ele foi diagnosticado com uma esclerose e ela foi obrigada a tratá-lo até o fim de sua vida.

Foi numa noite em que tentava dormir e não conseguia pelo barulho da tosse do marido que ela, já idosa, sem se questionar, sem pensar duas vezes, sem um pingo de remorso, pegou um travesseiro e segurou sobre o rosto de Olegário. Ele berrava como um boi, coaxava como um sapo, babava, mas não conseguia se defender. Ele se debateu até a morte.

Dona Carol vive o resto de seus dias varrendo a porta de casa. Agora ela não sofre, mas espera a morte com uma vassoura na mão.