Era já quase o pôr do sol quando Cristina retornava da escola, ela acabara de realizar o último exame daquele período, não via a hora do próximo ano chegar para que finalizasse seus estudos do ensino médio (à época chamado de científico). Chegando à porta de casa Cristina de súbito fez brotar em seu subconsciente o insight de uma ideia que traçaria um marco divisor em sua história.
Cristina morava em uma cidade interiorana, com criação de búfalos à beira de sua casa, residências espaçadas, como na zona rural, mas numa região com acesso a todo tipo de tecnologia natural dos grandes centros. Cristina era filha adotiva desde os doze anos, tinha agora seus dezessete e já havia se adaptado com a rotina da casa de seus novos pais.
Após a escola ela tinha o costume (e o encargo) de subir num cavalo e organizar os búfalos da criação de seu pai, alternando-os de pasto. Mas naquele entardecer ela não cumpriu com suas tarefas.
Cristina, à porta de sua casa, largou a bolsa pela janela e antes que qualquer um a visse embrenhou-se à pé na mata fechada ao lado do pasto principal até aproximar-se de uma frondosa árvore onde havia um montado balanço antigo. Uma árvore quase seca, com um oco onde ela noutra oportunidade encontrou fincada uma faca antiga. Cristina conhecia aquela mata como a palma de sua mão.
Sabia ela que no baixar da noite era comum que caçadores (legalizados e autorizados) fossem vistos naquela região, eles usavam arma de fogo e bestas com flechas deveras afiadas, nunca saíam em menos que cinco tendo em vista o risco de que encontrassem algum bichano. Mas sua caçada era de cervos, que agiam como praga, quebrando cercas e minando os pastos de búfalo dali.
A faca que agora Cristina portava era já antiga, mas extremamente amolada e eficaz, uma típica faca de caçador que fora esquecida ali, ou escondida para ocultação de arma de algum crime antigo. Quase não se enferrujava aquele material.
Cristina naquela noite era a caçadora, ela abusava de suas habilidades de reconhecimento do terreno, sua destreza em movimentar-se pelas árvores e sua pontaria brilhante. De cima das árvores ela lançava a faca em cada um dos caçadores que se afastava do grupo, silenciosamente recolhia seu corpo já sem vida e arrastava até uma valeta de erosão próximo, encobrindo logo após com os arbustos que ela já havia separado. Foram cinco mortes naquele dia, logo antes do último suspiro com o sangue impedindo qualquer gemido a única coisa que os caçadores viam já com os olhos enevoados e lacrimosos eram os fios de cabelos ruivos quase curtos, à altura da boca, que Cristina teimava em acomodar atrás das orelhas, mas que ali não permaneciam.
Havia uma pedra do açoite, onde os caçadores eram deitados e drenados. O corpo já sem vida era estendido com a barriga para cima e os braços abertos de palma ao céu, o sangue escorria dos pulsos, calcanhares e pescoço por um caminho cavado na terra até o rio. Após a última morte a valeta de desova foi tampada com um amontoado de terra e arbustos. Cristina se lavou e retornou até a casa de sua avó. A cesta que Dona Rosa ganhou de presente era um souvenir, onde os defuntos guardavam o alimento daquela caçada sucedida, para os cervos e para Cristina.
Alguns meses após, toda semana Dona Rosa era presenteada, a cesta foi apenas o primeiro presente.
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