quarta-feira, 5 de agosto de 2015

03. João e Maria

João era um garoto de seus dezesseis anos e meio de idade, tinha uma vida e tanto pela frente, ouvia músicas em seu quarto, estudava sobre suas bandas preferidas pelas enciclopédias e falava muito do futuro brilhante que esperava em breve, como produtor de uma grande gravadora de discos. 

João ainda morava com seus pais quando a tragédia ocorreu, deixando apenas ele e sua irmã, Maria, como os gerentes da casa. Maria era nova, de não mais que seus quatorze, ela ainda frequentava o ensino fundamental, não era lá muito esperta mas tinha seus momentos de brio.

João em certa oportunidade saiu para acampar com uns amigos, quando lá conheceu Glória, uma quarentona cheia de vida, edinheirada e com uns papeizinhos e comprimidos muito viagem para oferecer. Glória vendia drogas! João, ao experimentar, entrou num devaneio tão grande, de sobremaneira que fez nele despertar uma paixão arrasadora e insuportável por Glória.

Poucos dias após a primeira dose, João não fitava os olhos como antigamente. Seu comportamento era inadequado, suas noites eram barulhentas, suas músicas saíram dos fones.

Maria, certa feita, buscou Glória. Queria conhecê-la, tirar alguma satisfação sobre o que ocorrera naquele camping. Maria nunca saía sem seu canivete. Chegando até O apartamento de Glória, antes mesmo de qualquer palavra, a jovem senhora já avisada golpeou Maria na cabeça a e arrastou para dentro do quarto no porão. João não sabia o que fazer, foi á casa de Glória requisitar algum tipo de conselho; sem saber das intenções do garoto, espancou-o antes que ele pronunciasse qualquer palavra. Jogado ele foi às masmorras daquele quase calabouço, junto com sua irmã. 

Mas Maria acorda e torna-se o algoz de qualquer condenação. Arranca seu canivete e parte para cima do irmão, que se desperta num espanto de seu desmaio. João tira a faca das mãos de Maria e inicia a escavação nos arredores da maçaneta da porta. 

Do lado de fora Glória é aflita. Chama os amigos e informa do sequestro. Três capangas chegam à residência. O mais grotesco deles, de nome Gordo e odor expressivo nem sequer pronunciou uma palavra, apenas molhou os arredores do cômodo, abriu a porta no calar da madrugada e lá ateou gasolina e uma palhoça de jornal em chamas. O fogo não se espalhou. A fumaça foi confundida com a lareira daquela noite fria. Os gritos de agonia se confundiram com o disco que rodava na vitrola no mais alto volume.

Após tudo, as crianças foram ali mesmo enterradas. Alguns meses depois se passaram; foi o tempo exato da corda arrebentar na tentativa de Glória se suicidar. Até hoje ela vive no Asilo de Santa Efigênia, com seus 78 anos, não se lembra mais desse dia, não se lembra de quando começou a babar e defecar na própria roupa doada por estranhos.

Um comentário: